quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O maior artista do século


Digamos que eu seja uma pessoa apaixonada. Apaixono-me pela árvora do quintal vizinho, curto olhar para o céu na penumbra do nascer do dia e sou louca por todos os transeuntes que acompanham ou ignoram meu flanar com uma mochila xadrez (ou mesa de xadrez, carinhosamente apelidada pelos colegas de trabalho) e com o fone corderosa. Por vezes, um all star no pé, noutras, uma havaiana slim.
Eu sempre gostei de paixões. E confesso: tenho muitas ! Algumas me fazem sangrar, as outras me fazem sorrir; outras ajudam-me a ter um embasamente e até me auxiliam em rabiscar algumas palavras que, muitas vezes, até eu mesma desprezo. Porém, há aquelas que estão localizadas em lugares impares na minha vida.
Por exemplo: eu sou uma pessoa de fases. Uma hora sinto-me mais romântica e procuro acalentar o coração nos versos de Moraes. Esse mesmo, o Vinicius. Em outras ocasiões, sinto-me (e diria que essa sim é uma das minhas grandes marcas de personalidade) como uma louca desvairada e obsecada pela rua, pelos transeuntes, pela folha voando no ar. E, na arte de observação vagabunda, digamos que agarro-me e deixo que o tempo me leve ao século XIX. Por esses momentos, acredito seriamente ser meu patrono. É sempre ele que me faz ter boas idéias para escrever, é sempre ele que me dá uma outra visão de cidade. Nada como deixar-me levar na malandragem, no Rio, pelo do Rio.
De fases são feitas as coisas e a vida. E minhas paixões literárias tem aberto processos seletivos para que alguns novos velhos autores possam ocupar seu devido lugar. Eu diria que, nesse caso, o maior candidato a ganhar um mega lugar em minha vida se chama Nelson. Esse mesmo: o taxado de vulgar, pederasta. O Nelson, irmão do Mário Filho: o Nelson Rodrigues.
Confesso que não sei muito de sua vida e de sua vida jornalística e literária. Mas confesso que, ao ler um de seus livros - MEMÓRIAS, A MENINA SEM ESTRELA - percebi que temos o mesmo toque dramático e lírico de encarar a vida e, mais que isso: temos um amor em comum.
Como toda e qualquer pessoa mais próxima, ou não tão próxima assim, sabe, eu tenho um enorme amor, que ocupa e sempre ocupou um lugar de grande evolução literária (comparem com e evolução espiritual e tirem suas conclusões quanto sua importancia !!) na minha vida. Eu falo do meu Rosa, o Rosa da minha vida, o Rosa do meu ser, o Rosa que me faz chorar e o mesmo Rosa que me estressa graças ao seu vocabulário difícil, que me faz sempre ler e reler e reler seus textos, até eu começar a entender.
Esse meu amor pelo Rosa eu devo agradecer a um professor de Literaturas que eu tive quando estudei na Tijuca. Estava no meu segundo ano do ensino médio quando, por ventura, o nome do Rosa cruzou meu caminho e, desde sempre, lembro-me que fui a única da classe que leu seu conto, talvez o mais famoso, e por esse motivo, até um livro ganhei do meu professor. Bom, mais um para minha coleção.
Posso dizer que "A Terceira Margem do Rio" foi e sempre será especial. Só o Rosa conseguia fazer das palavras coisas mágicas, inexplicáveis. Simplesmente vocábulos formais fora de série.
E, nisso, lendo o meu mais novo companheiro de noites, vejo que temos algo muito em comum. Nosso amor por um João: João Guimarães Rosa.
E, por essa razão faço minhas as palavras de Nelson, pois nada além disso pode ou poderá ser dito do nosso grande e ilustríssimo Rosa:
"Daí por que não posso ver, hoje, Guimarães Rosa, sem uma sensação de deslumbramento. Durante anos pratiquei a solidão com certo pânico e certa vergonha. E eis que vem o autor de Sagarana e ergue a sua torre de marfim, assim como um cigano põe a sua barraca. Nada existe: - só a sua obra. Estão brigando no Vietnã ? POIS O NOSSO ROSA ESCREVE. Há a guerra nuclear, o fim do mundo ? GUIMARÃES ROSA funda outro idioma. A torre de marfim fez dele o maior artista brasileiro do século."
É, Deus, muito obrigado por ter existido mais um João.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Vou levando assim ..


Eu ando um pouco cansada dessa vidinha meio parada (para não dizer completamente) que ando levando. Não sei, ano passado (especialmente o segundo semestre) foi tão movimentado, tantas festinhas, tantos eventos, que acabei me acostumando com os embalados de quintas, sextas, sábados e domigos a noite (sem falar, por vezes, das segundas, terças e quartas !), e, de repente, a vida começa a desacelerar.


Será que isso é bom ? Será que isso é ruim ? Idéia alguma faço.. E a única coisa que me arrisco em dizer é que esse tempinho parado abre margens muito grandes para que minha mente trabalhe incontrolavelmente. Confesso que pensar é uma coisa muito minha, é parte de meu ser, é o que sou. Mas, por vezes, eu queria pensar menos. Bem menos, para ser sincera.


Hoje eu recebi uma notícia pelo telefone. Já esperada. O que não era esperado era a minha reação, enfim. Não sabia o que falar (se é que eu teria que falar alguma coisa), não sabia o que fazer e, confesso que, depois dessa adorável notícia, eu não consegui mais falar ao telefone normalmente e minhas respostas foram um grupo de dois de respostinhas prontas: "sim" e "não". Eu sei, odeio quando as pessoas se tornam monossilábicas comigo, mas eu simplesmente não pude evitar a mudança de comportamento.


Esperado, não-esperado, esperado. Agora o que sabíamos apenas se concretizou. E por que tamanho susto ? Por que ficar tão surpresa com a coisa mais óbvia em tempos ? Não sei .. Há mais coisas nesse mundo e dentro de nós que podemos imaginar .. E, quanto mais a gente se prepara para a notícia (refiro-me as más, claro), mas cedo elas chegam e, quando chegam, a gente percebe que não adiantou nada todo aquele looongo período investido em suas terapias na mesa de bar, "quicando no calcanhar" ou pelos simples encontros com os amigos mais distantes pelo messenger.


A gente perde tempo e perde graça de viver depois de toda essa terapia fraternal. Os amigos estão ao lado para nos auxiliar.. E como é bom esse auxílio, esse amparo, essa proteção. Eles enxergam melhor que nós e, por isso, são os nossos melhores terapeutas. Mas, de nada adianta, porque a vida é mais que simples regra, é mais que puro treino, é mais que simples palavras de consolo e de conforto dos amigos. Ter eles ao lado é algo que transcede o físico, mas quando a verdade chega aos ouvidos.. BOOM ! De nada adianta. A gente esquece tudo que conversou com eles, a gente esquece tudo que prometeu fazer e, inexplicavelmente, age de forma torta, esquisita. Simplesmente não age, fica parado.


Foi assim com a notícia ao telefone mais cedo. Apesar da notícia ser algo totalmente esperado, não poderia imaginar que chegaria tão rápida. No momento que escutei a sua voz meio arrastada, meio fria e séria, percebi que alguma coisa tinha acontecido. No momento que escutei a confirmação daquilo que sempre soubemos que aconteceria, minha voz sumiu, minha garganta secou, meu nariz ficou vermelho, os olhos mareados de lágrimas. A voz ficou cortada e, por não querer demonstrar tristeza ou fraqueza, me mantive fiel ao "sim" e ao "não". Eu não queria passar a idéia de que aquilo era o fim do mundo, apesar de ser parte do fim do mundo. Mas a vida é assim mesmo .. E por isso me mantive quieta, um pouco estranha (é verdade), com a voz meio trêmula.


Eu bati o telefone com a maior força do mundo. Sentei na cama da minha mãe e ali permaneci quieta, sozinha, sem chorar. Mas estive imóvel, tentando absorver e digerir a informação que me foi transmitida antes mesmo do meu almoço. Eu não soube como agir. Eu queria gritar, correr, andar, chorar. Mas não. Me mantive firme, me mantive quieta. Permaneci serena, como nas outras vezes.


Confesso que ainda estou meio desnorteada com toda essa carga de informação. Admito que não imaginei que as coisas pudessem acontecer assim tão rapidamente. Mas foi dessa forma que me dei conta que não existe mais o "faz-de-conta" e, que, de fato, nunca existiu. Só existiu na minha cabeça, porque me convinha acreditar nisso. De qualquer forma, começo a separar a Terra do Nunca da Terra Real em que vivo. E assim eu vou crescendo e me desapegando progressivamente dessa minha síndrome de Peter Pan. A notícia foi boa porque agora, enfim, eu vou crescer.. Assim como todo mundo.


Chegando do almoço, com o olhar meio vago, fui ver meu dvd dos Los Hermanos. Sentei na sala de minha casa e, mais uma vez, me surpreendi com a minha atitude: não chorei. Tive vontade e estava resolvida a não segurar as lágrimas caso a tristeza estivesse ao ponto de transbordar. Mas não. Não chorei e foi ai que realmente percebi que menininha não é tão menininha assim. Ela começou a crescer um pouco e amadureceu um pouco os sentimentos. Fico menos sensível e mais realista. Talvez seja melhor para ela dessa forma: deixar um pouco o sentimentalismo do lado e dar atenção um pouco maior para a realidade e para a razão.


Não chorei e não vou chorar, acredito. E é dessa forma que vou tocando a vida, navegando o barco. Eu vou levando assim, até onde der, onde eu conseguir.. Mas, uma coisa é verdade: "o acaso é amigo (e sempre será) do meu coração".. E, sendo assim, um dia as coisas se acertam de novo, de formas distintas.



sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sempre a eterna paixão ..


Meu Deus.
Passa dia, entra dia e cada vez que me pego p. escrever, só um assunto surge em minha pequena e humilde cabeça.

Não, não estou falando de amor, paixão ou coisas desse tipo.. Falo daquilo que, como já disse p. muitos e em muitos lugares, considero ser a maior das artes, quando falamos em Literatura.

Como há algum tempinho eu disse, é um absurdo a minha querida crônica ser considerada uma arte menor perante tooodas essas escolas literárias e essas formas bonitas e enfeitadas de escrita.

Ora, faça-me o favor e pare de falar bobeiras !

A crônica é tão rica quanto a poesia.. Besteira daqueles que acham que isso nunca pode (ou poderia) acontecer. Somos considerados inferiores (nós, leitores, e eles, cronistas) porque gostamos do simples, do direto, do cotidiano, da realidade ? Julgar-nos é o mais infeliz dos preconceitos. Somos a favor da poesia, da narrativa romantica e até de textos bem carregados de perfeição, daquela coisa que os estudiosos chamam de.. Como é mesmo ? Ah, sim, parnasianismo.

Refletindo dessa forma, falando em preconceitos e julgamentos, acabei por recordar de um preconceito parecido com esse, mas na música. E é quase a mesma coisa.. Por isso, podemos comparar o preconceito dos cantores líricos com nós, pobres mortais de canto popular. Ora, quanto preconceito! Não é porque não alcançamos os tons mais agudos e mais graves que nossa técnica seja "impura" ou somos péssimos cantores. Talvez, vendo pelo lado de uma cantora do popular (é, estudei na Escola de Música Villa-Lobos, como quase todos já sabem), eu poderia dizer p. os líricos, se eu tivesse essa "birra" com meus companheiros do lado de lá, que: nós cantamos bem, cada qual com sua técnica. Quem sabe nossa diferença seja no falsete, pois enquanto vocês se apegam à ele como fossem melhores amigos, nós cantamos sem ele, não forçamos nossa preciosa voz e nosso canto é mais "limpo".

Mas por que eu tô falando de música se comecei com literatura ou subliteratura (como alguns adoooram dizer)?

Ah, sim. Falávamos de crônica porque, além de minha paixão número um, eu estou maravilhaaada com o último livro que acabei de ler.

Encontrei-me com um amigo num shopping perto de minha casa, numa tarde de sexta (e chuvosa) para almoçarmos e conversamos sobre coisas da vida, mas sem falarmos de coração (esses assuntos sempre me deixam meio melancólica, e como o tempo já estava nublado, achei melhor não tocarmos no meu ponto fraco), e, sem mais nem menos, entramos na pequena livraria que esse pequeno (e inútil) shopping me proporciona. Não é assim uma MegaStore dessas que passo oras, mas admito que, para leituras rápidas e de livros best-seller e famosinhos, ele me cai bem que é uma beleza! Claro, gente.. Eu leio best-seller e alguns lixos também. Não ridicularizemos o famosinho e popular, pois eles podem ser mais interessantes (e inteligentes) que muitos títulos nobres e de alta literatura (vê-se bem o meu caso: comecei a ler um García Màrquez que foi rapidamente substituido por um Zuenir Ventura e, no final da leitura do livro do último, por destino, García ficou jogado em cima da mesa do meu computador, aqui na minha frente).

Mas o motivo d'eu voltar com esse xarope aqui não foi o Màrquez e nem o Ventura. O que me fez voltar a escrever foi a vontade de escrever por si só e, claro, anunciar um livro muitíssimo bem escrito e muito interessante.

Não gente, dessa vez eu não li João do Rio, apesar dele já estar fazendo uma enorme falta nos meus dias.. Até mesmo no exercício de flanar. Sem mais delongas, vim aqui apenas anunciar, e indicar para quem aprecia uma boa leitura, que existe um livro chamado "O Rei da Noite", de um escrito brasileiro chamado João Ubaldo Ribeiro, cronista do Jornal O Globo, para aqueles que não lembrarem dele somente pelo nome.

João Ubaldo já era admirado por mim por causa de "A Casa dos Budas Ditosos", que não li o livro, apesar de saber que é de alto nível, mas assisti a peça no meio do ano passado, e me diverti horrores. Não só pela peça em si, mas pelas gargalhadas bem dadas do meu acompanhante que achou a melhor coisa já vista em tempos. Confesso que achei interessante, mas fiquei mais interessada no livro.. Ainda não tive a oportunidade de ler, mas assim que tiver um tempinho, volto com essas minhas palavras inúteis para lhes narrar o que achei sobre o livro.

Bom, como já ia dizendo, João Ubaldo apareceu assim em minha vida. Antes ele era apenas um rostinho na propaganda do Jornal na televisão e eu sabia que ele escrevia suas crônicas semanais, mas como não sou de ler muito jornal, nunca me dei ao luxo de ler o que ele tinha para nos dizer.

Confesso que perdi muito tempo e muita sabedoria não lendo suas crônicas. Elas são de uma simplicidade, de um humor, de uma ironia que não via há muito tempo em crônicas hoje em dia. É verdade, todo mundo sabe como eu sou chata se tratando de crônica, ainda mais depois do meu "mini-curso de Crônica" lá na UFRJ, claro. Depois daquela primeira experiência e contato direto com o conceito dessa minha preferida, eu fiquei cada dia mais chatinha e sempre achei defeito em crônicas de grandes nomes, como é o caso do seu querido Veríssimo (me desculpe, mas eu não gosto dele, pois não acredito que ele escreva crônicas, apesar de escrever muitíssimo bem) e a Martha Medeiros (é assim que se escreve o nome dela?), que eu simplesmente não gosto. E ponto final.

Graças a essa minha mania horrorosa de ficar hoooras em uma livraria, eu acabei puxando da prateleira um livro que, aparentemente não me chamou atenção, pois achei a capa um pouco infeliz, comparada com a capa da Casa dos Budas, que é simplesmente linda, engraçada e original, mas logo após ler seu título fui direto ao autor. Não gente, eu não compro livros somente pelo autor, mas, dependendo de quem for, isso ajuda muito. Vendo o nome dele ali, grafado em vermelho, não tive medo de mais nada: peguei o livro em minhas mãos e disse ao meu amigo que levaria ele para "leituras de fim de noite", como costumo dizer.

Impossível seria sair da livraria com apenas um livro. Quem me conhece, ou quem já me encontrou saindo desses meus parques de diversão ou entrou em uma livraria comigo, sabe que eu compro, no mínimo, dois livros por vez. Um livro só é muito pouco.. Vai que ele é chato? Tendo outro você tem a opção de parar e ler o outro. Vai que ele é interessante demais e você o "destrói" em dois segundos?

Pois é. Esse segundo caso foi o que aconteceu em relação ao livro "O Rei da Noite". Eu simplesmente comprei ele ontem e ontem mesmo acabei de ler. Não quis sair de casa para mais uma noitada-zinha dessas e acabei me divertindo muuito. Eu e João (mais um João? Ê, laiá!), com suas ironias incríveis, sentada no chão da minha sala, junto com a minha caneca do coração, que acabou se tornando a preferida. Deus sabe por que.

Hoje acordei e já comecei o outro livro que comprei. Esse não é de crônica, mas eu nunca li nada dessa grande escritora e me surpreendi com o título do livrinho (leia-se que o uso do diminutivo, nesse caso, foi empregado para expressar carinho por um livro cuja capa é de uma inocência incomparável!): "Chão de Meninos", da Zélia Gattai. Mas, esse é papo para outro dia.

Sem mais delongas, sem mais por quês, deixo aqui anunciado que o livro é sensacional, rápido de ser lido e possui um humor irreverente. Deixo ai a dica.

E, do lado de cá, fico eu delirando com essas crônicas que são realmente crônicas e esperando que um dia alguém me entenda e entenda que esses preconceitos são pura bobagem !

beijoos, beijoos !